Agronegócio já tem ‘Tinder’ de gado e ‘Uber’ de tratores


Tecnologias aplicadas ao dia a dia ajudam produtores a minimizar custos e otimizar tempo

O que o campo tem em comum com os aplicativos Tinder e Uber e com as criptomoedas, como o bitcoin? As tecnologias por trás deles. Assim como os centros urbanos e as indústrias, o agronegócio está sendo invadido por novidades tecnológicas. Por meio de um aplicativo, a startup Alluagro oferece máquinas e implementos agrícolas para produtores rurais. O aluguel, que envolve a prestação de serviço, incluindo a mão de obra, fica, em alguns casos, até cinco vezes mais barato do que a compra do maquinário.

“Temos pequenos produtores rurais que estão utilizando equipamentos de última geração porque é aluguel. Funciona como o Uber: utilizamos o nosso banco de dados para unir equipamentos disponíveis e o cliente”, explica o CEO da Alluagro, Marco Aurélio Chaves. “Custos de depreciação, manutenção, subutilização, mão de obra e juros de linhas de crédito deixam de existir com o nosso serviço. É uma tendência no setor. Nos últimos quatro anos, alguns clientes aumentaram em 30% a terceirização em suas operações”, explica Werther Ferreira Coelho Neto, sócio de Chaves na Alluagro.

A pecuária também está na mira das novas tecnologias. No Reino Unido, o aplicativo Tudder divulga vacas e bois para reprodução por meio de uma plataforma que lembra o serviço de relacionamento Tinder. Nele, o produtor define se está em busca de um animal fêmea ou macho e, a cada imagem, ele diz “sim” passando para a direita e “não” para a esquerda, até chegar a um “match”. “Bem-vindo ao Tudder, onde você pode encontrar o par perfeito para o seu gado”, diz a apresentação do aplicativo, que também traz o aviso: “Isso é para ser um pouco divertido”.

O Tudder foi lançado no último dia 14 de fevereiro (Valantine’s Day, o dia dos namorados de ingleses e norte-americanos) pela Hectare Agritech, que também é responsável pelo site de vendas de animais ShellMyLivestock, no qual um terço dos fazendeiros do Reino Unido já está cadastrado. O Tudder não chegou ainda ao Brasil, mas aplicativos como o Boi na Linha já fazem a venda de gado pelo smartphone. “É um caminho sem volta. Em breve a maioria das vendas de gado será feita pela internet. O produtor vê um filme do animal e dá seu lance”, avalia o diretor técnico da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), Valdecir Marin Júnior.

Tecnologia que ficou conhecida em função das criptomoedas, o blockchain também está dentro da cadeia produtiva do alimento. “O blockchain é um sistema de proteção de informação. Ele pode ser usado para proteger as informações que são geradas nos sensores presentes hoje em plantações, tratores e caminhões. Isso permite que toda a produção seja rastreada e que o desperdício seja evitado”, explica Percival Lucena, pesquisador de blockchain da IBM.

Segundo ele, essa tecnologia permite, por exemplo, que produtos orgânicos, que têm uma duração menor, sejam mais bem manejados pelo produtor. A IBM tem a rede de blockchain Food Trust, que já está sendo usada por grandes redes de supermercado, como o Walmart, nos Estados Unidos, e o Carrefour, na Europa. A rede possui mais de 50 clientes no mundo, já realizou cerca de 200 mil rastreamentos e entregou 5 milhões de produtos.

Desconhecimento barra inovações

Entre os entraves para a adoção de novas tecnologias no campo está a cultura dos produtores. “Um dos problemas que o agronegócio brasileiro enfrenta é a falta de capacitação, que gera a dificuldade de produtores assimilarem novas tecnologias”, avalia a gerente sênior da PwC Brasil, Daniela Coco. Segundo um levantamento de 2018 da PwC Brasil sobre o agronegócio em Minas Gerais, a necessidade de capacitação para novas tecnologias está entre os desafios do setor junto com o déficit no Orçamento do Estado, as barreiras tarifárias de exportação e os altos custos logísticos.

“Um dos diferenciais da Alluagro é que já levamos o equipamento com mão de obra, porque a falta de pessoas capacitadas para operar as ferramentas de última geração no Brasil é grande”, afirma o sócio do aplicativo de aluguel de equipamentos agrícolas Werther Ferreira Coelho Neto.

Para o diretor técnico da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), Valdecir Marin Júnior, na pecuária, a resistência é cultural. “O produtor, como lida com material vivo, tem uma necessidade maior de ver, ou enviar um técnico para avaliar o animal pessoalmente. Com o tempo, a tecnologia vai superar isso”, diz Marin.

A ExpoZebu 2019 terá 25% a mais de leilões e shoppings de animais do que no ano anterior e 46% de acréscimo na comparação com 2017. O evento será em Uberaba, no Triângulo Mineiro, de 27 de abril a 5 de maio. O preço dos animais em exposição pode chegar a mais de R$ 1 milhão, segundo Marin.

Startups miram o campo

Mercado

Uma pesquisa da KPMG aponta que o Brasil tinha 135 startups voltadas para o agronegócio (agtechs) no ano passado.

No Estado

Minas Gerais é o segundo em termos de quantidade de agtechs no país, com 15,2% do total. O Estado de São Paulo é o primeiro, com 55,6%. O Rio Grande do Sul é o terceiro colocado, com 11,3%.

Áreas

Segundo o levantamento da KPMG, as startups voltadas para o agronegócio no Brasil atuam nas áreas de robótica e drones (11), gestão de animais (14), controle de pragas (16), comércio eletrônico (18), reflorestamento (4), gestão agrícola (27), fazendas inteligentes (7), análise de dados e agricultura de precisão (38).

Papel e app

Beta. A IBM está desenvolvendo um app para análise de solo e água que usa inteligência artificial. Com um cartão de papel, onde se coloca a amostra, e o celular, o usuário gera o resultado.





Fonte: R7