As formigas também emitem gases de efeito estufa potentes com seu resíduo “industrial”


Scott Bauer, Departamento de Agricultura dos EUA/Wikimedia

Uma nova pesquisa mostra que pilhas de resíduos produzidos por formigas-cortadeiras emitem quantidades significativas de óxido nitroso, um potente gás de efeito estufa.

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Reações químicas dentro das pilhas de resíduos orgânicos produzidos pelas formigas-cortadeiras criam quantidades abundantes de óxido nitroso, de acordo com uma nova pesquisa publicada na quarta-feira (2) na revista científica Proceedings of the Royal Society B. Esses insetos esforçados não estão contribuindo para o aquecimento global na escala das atividades humanas, mas seus comportamentos estão alterando fundamentalmente a composição e a função das florestas tropicais, incluindo a forma como os nutrientes são transportados e reciclados.

As formigas-cortadeiras são insetos herbívoros dominantes e onipresentes nas Américas Central e do Sul. Esses insetos conseguem sugar a seiva das folhas para aumentar rapidamente a energia, mas o verdadeiro objetivo da colheita de folhas é alimentar os fungos que crescem em seus ninhos. As formigas-cortadeiras são agricultoras de insectoides, cultivando fungos para alimentar as suas colônias. Incrivelmente, elas podem remover até 8% da folhagem florestal viva a cada ano, tornando-as verdadeiras influenciadoras do ambiente, afetando tanto a estrutura como a função da floresta.

Porém, como qualquer processo de escala industrial, essa atividade agrícola resulta em resíduos. As formigas-cortadeiras não gostam de deixar lixo por aí e, por isso, desenvolveram um sistema pelo qual fungos mortos, folhas podres e restos de formigas mortas são lançados no topo de um aterro, longe da colônia. Esse comportamento cria uma espécie de pilha de compostos cheia de matéria orgânica, preparando o terreno para processos químicos complexos. O carbono e o nitrogênio contidos nesses aglomerados de resíduos interagem para produzir uma quantidade surpreendente de óxido nitroso, como mostra a nova pesquisa.

Pilha de resíduos produzidos por formigas-cortadeiras. Imagem: F. M. Soper et al., 2019/Proceedings of the Royal Society B

Para o novo estudo, a entomologista Fiona Soper, da Universidade de Montana (agora na Universidade Cornell, em Nova York), e seus colegas viajaram para uma floresta tropical no sudoeste da Costa Rica. A equipe de Soper estudou as pilhas de lixo produzidas pela espécie Atta colombica, uma espécie de formiga-cortadeira. No total, os pesquisadores mediram as emissões de 22 depósitos de lixo de colônias em uma área de quatro quilômetros quadrados.

Os resultados mostraram que cada pilha era um ponto importante de óxido nitroso na floresta tropical. Individualmente, esses locais de resíduos não produzem uma grande quantidade de gases de efeito estufa, mas, coletivamente, sim. A equipe estima que 350 gramas de óxido nitroso são produzidos por hectare a cada ano, o que supera as “emissões de fundo em mais de três ordens de magnitude”, escreveram os pesquisadores no estudo, acrescentando que os níveis eram comparáveis aos de “sistemas projetados, como tanques de tratamento de águas residuais”. Esses pontos importantes de óxido nitroso produzem gás em taxas muito maiores do que qualquer outra coisa que poderia ser produzida sem a intervenção das formigas, como a topografia ou a umidade do solo, escreveram os pesquisadores.

É importante ressaltar que o estudo foi limitado a uma pequena área geográfica; a quantidade de gás produzido em outros locais de formigas-cortadeiras pode variar. No futuro, os cientistas devem realizar pesquisas semelhantes em outras partes das Américas Central e do Sul para saber mais e calcular a contribuição global total das emissões de óxido nitroso feitas pelas formigas-cortadeiras. Como os pesquisadores escreveram no estudo, essas formigas “podem representar uma fonte não reconhecida de gases de efeito estufa em toda a Região Neotropical”.

Conforme apontado, a quantidade de óxido nitroso produzido por essas formigas não deve afetar o clima global, mas fica claro por esse estudo que, apesar de seu tamanho diminuto, elas são uma verdadeira força da natureza.

[Proceedings of the Royal Society B via New Scientist]



Fonte: Gizmodo