Cirurgia cerebral inédita devolve audição e voz a menina com surdez rara


Leia Armitage nasceu sem o nervo auditivo, o que a impedia de ouvir e aprender a falar. Cinco anos após a cirurgia, ela ouve e fala ‘eu te amo’

Por
Redação

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22 abr 2019, 17h42 – Publicado em 22 abr 2019, 16h25

Uma cirurgia cerebral inovadora permitiu que uma menina surda, que jamais havia dito uma única frase, ouvir sons e aprender a falar. A britânica Leia Armitage nasceu sem o nervo auditivo – uma condição rara que não pode ser contornada com aparelhos auditivos ou implantes cocleares. Isso significava que a menina tinha poucas chances de falar ou ouvir qualquer coisa. “Ouvimos [dos médicos] que nem se colocássemos uma bomba atrás da orelha dela ela escutaria a detonação”, comentou Bob Armitage, pai de Leia, à BBC.

Durante os primeiros anos de vida, a garotinha viveu em silêncio completo. Por causa disso, seus pais aceitaram submeter a filha à uma cirurgia pioneira que prometia alterar o quadro que parecia irreversível. O procedimento, que carregava altos riscos, foi realizada quando a menina tinha dois anos de idade. Para a família, a intervenção cirúrgica permitiria a Leia escutar carros buzinando ao atravessar a rua, por exemplo, o que proporcionaria maior independência e segurança para ela se locomover fora de casa.

Felizmente, o procedimento permitiu a Leia, hoje com sete anos, muito mais do que isso. Na volta para casa depois de receber alta, os pais notaram que Leia já conseguia ouvir o som das portas do metrô abrindo e fechando. “No começo pensamos que era um golpe de sorte, mas depois de seis paradas, percebemos que ela realmente podia ouvi-las – foi incrível”, revelou o pai. 

Cinco anos após o procedimento, ela ouve uma variedade de sons e é capaz de usar a própria voz. Além disso, ela apresenta desempenho surpreendente na escola, onde divide a sala com crianças sem qualquer deficiência auditiva, graças ao auxílio de assistentes que a acompanham individualmente, usando linguagem de sinais

Mas a maior emoção para os pais é ouvi-la dizer que os ama – algo que imaginaram impossível ao serem notificados da condição da criança. “‘Te amo, papai’, é provavelmente a melhor coisa que já ouvi ela dizer”, contou o pai. E a mãe, Alison, completou: “Quando estou colocando ela para dormir, ela já diz ‘boa noite, mamãe’, algo que eu nunca imaginei ouvir”.

A cirurgia

A intervenção cirúrgica a qual Leia foi submetida envolve inserir um aparelho composto por um microfone e um processador de som diretamente no cérebro – eles são acoplados ao lado da cabeça para que transmitam o som ao implante. O equipamento estimula os canais auditivos em crianças nascidas sem nervos específicos por meio de um estímulo elétrico capaz de prover sensações auditivas.

Com a cirurgia, algumas crianças conseguem desenvolver a fala, como foi o caso de Leia. Nem sempre é possível restaurar completamente a audição.  “Os resultados variam muito. Alguns pacientes se saem melhor do que outros. Exige adaptação, e crianças pequenas se adaptam melhor, então gostamos de inserir o implante o mais cedo possível”, explicou Dan Jiang, diretor clínico do Centro de Implantes Auditivos do Guy’s and St Thomas’ NHS Foundation Trust, à BBC.

O especialista ainda mencionou que crianças menores de cinco anos apresentam maior facilidade para aprender novos conceitos de som e respondem bem às terapias intensivas.

Diante dos resultados promissores, o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS, na sigla em inglês) anunciou que esse tipo de cirurgia será transformado em procedimento de rotina para que mais crianças possam ser beneficiadas. “Esta cirurgia tem o poder de transformar o futuro das crianças surdas e dar esperança a mais famílias”, disse Matt Hancock, secretário de saúde, ao Daily Mail. 

A ampliação da disponibilidade para a cirurgia foi muito bem vista por especialistas, incluindo a Sociedade Nacional de Crianças Surdas do Reino Unido que acredita que investir no procedimento é dar um ‘passo importante em direção a uma sociedade em que nenhuma criança surda fique para trás’.



Fonte: Veja