Faculdades de humanas dão menos retorno que outras? | Educação


Na época em que a educação universitária era uma coisa para poucos, talvez não houvesse a expectativa de que um diploma fosse um trampolim direto para uma carreira.

Isso é passado. Hoje, um diploma é quase uma necessidade para o mercado de trabalho – ter um reduz à metade suas chances de ficar desempregado.

Ainda assim, isso em si não é garantia de emprego – e, mesmo assim, estamos pagando mais caro por um diploma.

Nos Estados Unidos, hospedagem, comida e mensalidade numa universidade privada custam em média US$ 48.510 por ano (R$ 192.676, em valores de 25 de abril de 2019); no Reino Unido, as mensalidades custam US$ 12.000 (R$ 47.662,80) por ano para estudantes britânicos.

Aprender por aprender é uma coisa linda. Mas, considerando esses custos, não surpreende que a maioria de nós precise que nossos diplomas deem retornos concretos. Em geral, isso acontece: nos EUA, por exemplo, uma pessoa com diploma de bacharel ganha US$ 461 (R$ 116) a mais por semana do que alguém que nunca frequentou uma universidade.

Mas a maioria de nós quer maximizar esse investimento – e isso pode nos levar o ensino superior de uma forma muito instrumentalizada. Quer ser jornalista? Estude jornalismo, nos dizem. Quer ser advogado? Então estude direito. Não tem certeza? Curse ciência, tecnologia, engenharia e matemática, assim, você pode se tornar um engenheiro ou especialista em TI. E o mais importante: esqueça as ciências humanas, como a filosofia, a história ou a sociologia.

Isso foi ecoado em declarações e em políticas públicas em todo o mundo. Nos EUA, políticos que vão desde o senador conservador Marco Rubio ao ex-presidente Barack Obama transformaram as humanas em uma piada. Obama, depois, se desculpou.

Na China, o governo tem planos de transformar 42 universidades em instituições de ciência e tecnologia de “classe mundial”. No Reino Unido, o foco do governo nas ciências levou a uma queda de quase 20% na proporção de estudantes que escolhem cursas literatura no ensino médio e 15% dos que escolhem cursar artes.

Mas há um problema com essa abordagem. E não é só o fato de estarmos perdendo uma ferramenta importante para entender e melhorar o mundo e a nós mesmos, melhorar nosso bem-estar pessoal, o estímulo à inovação à tolerância, entre outros valores.

É também o fato de que nossas suposições sobre o valor de mercado de certos diplomas – e a “inutilidade” de outros – podem estar equivocadas. Na melhor das hipóteses, isso poderia deixar alunos desnecessariamente estressados. Na pior das hipóteses, empurraria as pessoas para caminhos que as preparam para vidas menos satisfatórias.

Também perpetua o estereótipo de que quem se forma em humanas faz parte de uma casta de elite, o que pode desestimular estudantes menos privilegiados, e qualquer outra pessoa que precise de um retorno imediato sobre seu investimento na universidade, a buscar disciplinas potencialmente mais gratificantes. (Embora, é claro, isso não seja nem de longe o único problema de diversidade que muitas disciplinas têm).

Habilidades sociais, pensamento crítico

George Anders está convencido de que não entendemos o valor das humanas. Quando ele era repórter de tecnologia da Forbes, de 2012 a 2016, ele diz que o Vale do Silício “estava obcecado com a ideia de que a única educação que importava era a científica”.

Mas quando ele conversou com os gerentes de contratação das grandes empresas de tecnologia, ele encontrou uma realidade diferente. “A Uber estava escolhendo pessoas formadas em psicologia para lidar com passageiros e motoristas infelizes. A Opentable estava contratando pessoas formadas em literatura para convencer donos de restaurantes sobre o valor que dados poderiam ter para seus negócios”, ele diz.

“Percebi que a capacidade de se comunicar e conviver com as pessoas, entender o que elas estão pensando e pensar de forma crítica – todas estas coisas eram valorizadas e apreciadas por todos como habilidades profissionais importantes, exceto a imprensa.”

Essa percepção levou-o a escrever seu livro, apropriadamente intitulado You Can Do Anything: The Surprising Power of a “Useless” Liberal Arts Education (Você Pode Fazer Qualquer Coisa: O Poder Surpreendente de uma Educação “Inútil” em Artes, em tradução livre).

Dê uma olhada nas habilidades que os empregadores dizem que buscam. Pesquisa do LinkedIn sobre as habilidades de trabalho mais procuradas pelos empregadores em 2019 revelou que as três “habilidades sociais” mais procuradas eram criatividade, poder de persuasão e capacidade de colaboração, enquanto uma das cinco principais “habilidades concretas” era a gestão de pessoas.

Um total de 56% dos empregadores do Reino Unido entrevistados disseram que sua equipe carecia de habilidades essenciais para o trabalho em grupo e 46% achavam que era um problema o fato de que seus funcionários tinham dificuldade de lidar com sentimentos, deles ou de outros.

Não são apenas os empregadores do Reino Unido: um estudo de 2017 descobriu que os empregos que mais crescem nos EUA nos últimos 30 anos exigem especificamente bons níveis de habilidades sociais.

Podemos ouvir isso diretamente de dois executivos da Microsoft, que escreveram recentemente: “Como os computadores se comportam cada vez mais como humanos, as ciências sociais e humanas se tornarão ainda mais importantes: idiomas, arte, história, economia, ética, filosofia, psicologia e direitos humanos”.

Os cursos de desenvolvimento econômico e social, por exemplo, podem ensinar habilidades críticas, filosóficas e baseadas na ética que serão fundamentais para o desenvolvimento e gerenciamento de soluções de inteligência artificial.

É claro que você pode ser um excelente comunicador e pensador crítico sem ter um diploma de humanas. E qualquer boa educação universitária, não apenas uma em idioma ou psicologia, vai aprimorar ainda mais essas habilidades.

“Qualquer formação lhe dará habilidades genéricas muito importantes, como ser capaz de escrever, ser capaz de apresentar um argumento, fazer pesquisa, solucionar problemas, trabalhar em equipe, familiarizar-se com a tecnologia”, diz Anne Mangan, consultora educacional e de carreira que vive em Dublin, na Irlanda.

Mas poucos cursos são tão fortes em leitura, escrita, fala e pensamento crítico quanto os de humanas – seja pelos debates com outros estudantes em um seminário, escrevendo um trabalho de tese ou analisando poesia.

Quando lhe pedem para citar as três habilidades mais úteis no mercado de trabalho de uma pessoas formada em ciências humanas, Anders não hesita. “Criatividade, curiosidade e empatia”, diz ele. “A empatia é geralmente a principal delas. Isso não significa apenas sentir pena de pessoas com problemas. Significa ter capacidade de compreender as necessidades e desejos de um grupo diversificado de pessoas.”

“Pense em pessoas que supervisionam testes clínicos de fármacos. Você precisa ter médicos, enfermeiros e reguladores pensando da mesma forma. Você precisa ter a capacidade de pensar sobre o que vai fazer com que essa mulher de 72 anos se sinta à vontade de ser acompanhada a longo prazo, o que temos de fazer para que este pesquisador leve a sério um estudo. Isso é um trabalho de empatia.”

Mas, em geral, dizem Anders e outros, o benefício de um diploma de humanas está na ênfase que ele coloca em ensinar os alunos a pensar, criticar e persuadir os outros – muitas vezes em temas onde não há muitos dados disponíveis.

Não é de admirar, portanto, que os formados em humanas achem trabalho numa variedade de campos. O maior grupo de formados em humanas dos EUA, 15%, vai para cargos de gerência. Isso é seguido por 14% que ocupam cargos administrativos, 13% que trabalham com vendas e outros 12% que trabalham com educação, principalmente ensino. Outros 10% estão nas áreas de negócios e finanças.

E embora muitas vezes exista uma suposição de que as carreiras buscadas por pessoas formadas em humanas não são tão boas quanto os empregos em que entram, digamos, engenheiros ou médicos, isso não é verdade.

Na Austrália, por exemplo, três das dez profissões que mais crescem são assistentes de vendas, funcionários administrativos e gerentes de publicidade, relações públicas e vendas – e todas essas parecem áreas que os graduados em humanas tendem a buscar.

Enquanto isso, uma pesquisa de 2019 da Glassdoor (site onde funcionários avaliam a qualidade do trabalho em empresas) descobriu que oito dos dez melhores empregos do Reino Unido eram cargos gerenciais – funções orientadas para as pessoas, que exigem habilidades de comunicação e inteligência emocional.

A pesquisa definiu o “melhor” emprego combinando o potencial de ganhos salariais, o índice geral de satisfação no trabalho e o número de vagas de emprego. E muitos deles estavam fora das indústrias baseadas em exatas.

O terceiro melhor emprego era o de gerente de marketing; o quarto, gerente de produto; o quinto, gerente de vendas. Uma função de engenharia só aparece na lista no 18º lugar – abaixo das posições em comunicação, RH e gerenciamento de projetos.

Um estudo recente com 1.700 pessoas de 30 países, por sua vez, descobriu que a maioria dos que ocupavam cargos de liderança era formada por pessoas com diplomas em ciências sociais ou ciências humanas. Isso foi especialmente o caso de líderes com menos de 45 anos de idade; líderes com mais de 45 anos tinham maior probabilidade de ter estudado uma exata.

Esteja preparado para a carreira

Isso não quer dizer que um diploma de humanas seja o caminho mais seguro. “Muitas das pessoas com quem conversei disseram que levou cinco ou dez anos de carreira até que se encontrassem, e que houve uma sensação de que o início foi difícil”, diz Anders. “Mas, no final das contas, costumava dar certo.”

Para alguns recém-formados, o desafio inicial era não saber o que eles queriam fazer com suas vidas. Para outros, foi não ter adquirido tantas habilidades técnicas quanto, digamos, seus colegas estagiários de TI, e ter de correr atrás depois.

Mas buscar um diploma mais técnico pode ter riscos também. Nem todo adolescente sabe exatamente o que quer fazer de suas vidas, e nossas aspirações de carreira mudam com o tempo. Uma pesquisa do Reino Unido mostrou que mais de um terço dos britânicos mudaram de carreira ao longo da vida.

O LinkedIn revelou que 40% dos profissionais estão interessados em fazer uma “mudança de carreira” – especialmente os mais jovens.

Concentrar-se em habilidades amplamente aplicáveis, como o pensamento crítico, não parece algo tão absurdo quando se leva em conta a quantidade de empregos e setores diferentes em que elas podem ser aplicadas (embora para um jovem que está descobrindo seu caminho, ter tantas opções pode ser desconcertante).

Habilidades técnicas especializadas também são importantes no mercado de trabalho. Mas há várias maneiras de adquiri-las.

“Eu sou muito a favor de estágios e programas de aprendizado, como trainees. Vimos que isso muitas vezes resulta em você ter habilidades mais sólidas no local de trabalho”, afirma a coordenadora de desenvolvimento de carreira Christina Georgalla.

“Até defendo que, após a graduação, se você não tiver certeza do que fazer, em vez de tirar um ano de folga, em vez de viajar, faça estágios diferentes. Mesmo que seja no mesmo campo, como na TV, digamos, faça transmissão, produção, apresentação, para você poder ver a diferença.” Mas e os outros problemas, como uma maior taxa de desemprego e salários mais baixos?

Quanto mais aberto, melhor

É verdade que as ciências humanas vêm com um risco maior de desemprego. Mas ele é menor do que você imagina. Para os jovens (de 25 a 34 anos) nos EUA, a taxa de desemprego das pessoas com diploma em humanas é de 4%.

Diplomas de engenharia e negócios vêm com uma taxa de desemprego de pouco mais de 3%. Esse único ponto percentual adicional é de uma pessoa a mais em cada 100, um valor tão pequeno que geralmente fica dentro da margem de erro de muitas pesquisas.

A questão dos salários também não é tão óbvia assim. Sim, no Reino Unido, os principais salários são daqueles que estudam medicina ou odontologia, economia ou matemática; nos EUA, os principais são engenharia, ciências ou negócios. As humanas mais populares, como história ou inglês, estão na metade inferior do grupo.

Mas é preciso olhar melhor, até porque, para alguns trabalhos, parece ser melhor você começar com uma formação mais ampla, em vez de uma mais profissional.

Veja o direito, por exemplo. Nos EUA, um estudante de graduação que optou pelo caminho aparentemente mais rápido para se tornar advogado, juiz ou magistrado – formando-se em um curso de direito ou estudos jurídicos deve ganhar uma média de US$$ 94 mil (R$ 369.861,80) por ano.

Mas aqueles que se formaram em filosofia ou estudos religiosos e depois cursram direito na pós-graduação ganham em média US$ 110.000 (R$ 432.817) anuais. Os formados em áreas de estudos étnicos e civilizações ganham US$ 124.000 (R$ 487.902,80), os graduados em história dos EUA ganham US$ 143.000 (R$ 562.662,10) e aqueles que estudaram línguas estrangeiras ganham US$ 148.000 (R$ 582.335,60), um impressionante valor de US$ 54.000 (R$ 212.473,80 ) a mais por ano em relação aos que cursaram direito na graduação.

Há exemplos semelhantes em outras indústrias também. Considere os gerentes das indústrias de marketing, propaganda e relações públicas: os que se formaram em publicidade e RP ganham cerca de US$ 64 mil (R$ 251.820,80) por ano – mas os que estudaram humanas ganham US$ 84 mil (R$ 330.514,80).

Isso é importantíssimo, diz Mangan. Seja o que for que um estudante estude na universidade, deve ser algo em que eles não são só bons, mas de que eles realmente gostam.

“Na maioria das áreas que eu vejo, o empregador só quer saber que você fez faculdade e se saiu bem. É por isso que eu acho que fazer algo que realmente lhe interessa é essencial – porque é nisso que você vai se sair bem “, ela diz.

Não importa qual seja, tomar uma decisão de formação ou carreira com base em salários médios não é uma boa jogada. “O sucesso financeiro não é um bom motivo. Isso tende a ser um motivo muito ruim”, diz Mangan.

“Seja bem-sucedido em alguma coisa e o dinheiro virá. Concentre-se em fazer as coisas que você ama e as pessoas vão querer lhe dar um emprego. Então, vá e se desenvolva seu potencial dentro desse trabalho.”

Isso nos leva a uma questão mais ampla: toda a discussão sobre se um aluno deve escolher exatas ou humanas pode estar equivocada, para início de conversa. Não é como se a maioria de nós tivesse uma quantidade igual de paixão e aptidão para, digamos, contabilidade e história da arte. Muitas pessoas sabem do que mais gostam. Elas simplesmente não sabem se devem perseguir esse interesse. E as manchetes que a maioria de nós vê não ajudam.

Isso faz parte do motivo pelo qual os pais e professores precisam dar um passo atrás, diz Mangan. “Só existe um especialista. Eu sou o especialista em mim, você é o especialista em você, eles são especialistas em si mesmos”, diz ela. “E ninguém, ninguém mesmo, pode dizer a eles o que fazer e como.”

Mesmo, parece, se isso significa fazer uma formação “inútil”.



Fonte: G1