‘Pessoas vão enjoar dos popstars’, diz vocalista do L7, que volta ao Brasil após 25 anos | Música no Rio Grande do Sul


Após 25 anos, o L7, banda símbolo do movimento feminista no rock conhecido como riot grrrl, volta ao Brasil para uma turnê em cinco capitais a partir de sábado (1º), quando se apresenta no Rio de Janeiro. Em Porto Alegre, o show acontece na terça-feira (4). Elas também tocam em São Paulo (2), Curitiba (5) e Belo Horizonte (6). Veja serviço completo abaixo.

A última vez que elas estiveram no Brasil foi na célebre edição do Hollywood Rock de 1993. Shows do Nirvana, do Alice in Chains e do Red Hot Chilli Peppers eram aguardadíssimos, mas foi o L7 que arrancou elogios em um apresentação memorável. “Provavelmente foi um dos maiores festivais em que já tocamos”, lembra a vocalista e guitarrista, Donita Sparks, hoje aos 55 anos.

Ela chegou a retornar ao Brasil com uma apresentação solo, em 2008. O L7 estava em hiato. Foi somente em 2014 que Donita, Suzi Gardner (guitarra/vocal), Dee Plakas (bateria) e Jennifer Finch (baixo), voltaram a tocar juntas.

Em entrevista ao G1, a vocalista defendeu o rock como a música que ainda pode ser sinônimo de atitude, diferente dos popstars e DJs da atual constelação musical. “Não acho que isso seja rebeldia”, diz.

Mesmo assim, ela e suas colegas de banda preferem deixar os discursos políticos durante os shows no passado, e concentram na música as mensagens de protesto contra a política conservadora. Como “Dispatch From Mar-A-Lago”, música que marcou o retorno da banda à ativa, com piadas envolvendo Donald Trump e seu resort na Flórida, Mar-A-Lago.

Afinal de contas, é a mesma banda que organizou o “Rock for Choice”, festival que angariou fundos para campanhas por direitos das mulheres, e cuja vocalista ficou conhecida por atirar um absorvente íntimo na plateia do Reading Festival. Agora, elas vêm com outra postura. Mas não menos roqueiras.

G1 – Vocês acabaram ficando conhecidas por abordarem questões políticas durante os shows. O que podemos esperar da turnê brasileira nesse aspecto?

Donita Sparks: Falamos com nossos fãs através da nossa música, tentando dar um pouco de alívio da política que estamos vivendo nesses dias. Falamos com eles pelas letras. Estamos trabalhando em um disco novo agora, que vai ter mensagens [políticas]. Mas é um show de rock. Não estamos aqui para pregar para ninguém.

No passado, usamos o palco para expressar nosso ponto de vista político, mas dessa vez, escolhemos não fazer isso. Por que queremos que as pessoas esqueçam seus problemas no nosso show, e se divirtam.

Temos muitos hinos de raiva, como “Shitlist” ou “Shove”. As pessoas podem entender o nosso sentimento, erguer o dedo do meio e sorrir ao mesmo tempo.

Vi o Blondie recentemente. [A vocalista] Debbie Harry estava numa fantasia de abelha. O nome do disco é “Polinator”. E havia um posicionamento sobre meio ambiente e sobre como as abelhas estão morrendo. Eu achei que é uma forma muito legal de fazer isso, ela usava uma capa, em que dizia algo tipo “salve o planeta”.

Todos têm o direito de se expressar. Eu escolho não abordar esses assuntos porque tenho uma responsabilidade com o meu público, de não colocá-lo em riscos nos nossos shows. Por isso escohemos nos apresentar assim, nesses dias.

O que eu acho que as pessoas podem fazer por esses dias é protestar nas ruas, criar arte de resistência, ou dar seu tempo para alguma caridade com a qual se importam, ajudar as pessoas ou o meio ambiente. Além de se envolver politicamente e trabalhar para candidatos que não estão desse lado. Há formas produtivas que nós podemos canalizar essa raiva e frustração.

G1 – Você consegue perceber a influência do L7 nas bandas formadas por mulheres hoje em dia?

Donita Sparks: Acho que o L7 e outras bandas inspiraram muitas jovens a tocar um instrumento em uma banda de rock. Mas acho que a receita do L7 não foi duplicada. Acho que é uma receita muito especial. Só nós conseguimos fazê-la.

Sabemos que influenciamos as pessoas e temos muito orgulho disso, porque quando você é um adolescente, é uma época muito difícil e você precisa de pessoas em quem se inspirar, de bandas em quem se inspirar. E isso é uma das coisas de que mais me orgulho, nós ajudamos as pessoas a enfrentarem os momentos difíceis na sua vida.

G1 – Ainda há sexismo no rock?

Donita Sparks: Há sexismo em todo lugar. Se você é uma médica, provavelmente há sexismo no hospital em que você trabalha. (O rock), como em qualquer outra indústria, quando uma mulher participa, terá muito sexismo.

G1 – Qual o conselho que você daria a uma menina que está começando a ter uma banda agora?

Donita Sparks: Seria o mesmo conselho que eu daria para um garoto, que seria seja verdadeiro consigo mesmo, faça algo único, e se divirta. Não seja movido por sucesso. Seja movido pela experiência legal de estar em uma banda. Sucesso é legal, mas o que é realmente incrível é estar em uma banda.

G1 – Vocês estão trabalhando em um disco novo, o primeiro desde ‘Slap Happy’, que saiu em 1999. Como será?

Donita Sparks: Disco novo sai em fevereiro ou no máximo abril. Estamos no meio do caminho (com as gravações), nos divertindo mesmo.

Vai soar como o L7. Vou te contar um segredo: não vai soar como a Lady Gaga.

G1 – O L7 surgiu em uma época em que o rock estava entre os estilos mais populares, o que hoje é passado. Por que o rock ainda faz sentido para vocês?

Donita Sparks: Rock tem a ver com rebeldia. E, sim, está envelhecendo. Às vezes eu vejo pessoas que mandam seus filhos para um camping de rock and roll. E eu fico tipo “uau, se a minha mãe quisesse me mandar para um camping de rock and roll, eu estaria fazendo qualquer outra coisa que não rock and roll”. Quer dizer, eu amo meus pais, mas o ponto aqui é de se rebelar.

E eu não acho que a rebeldia esteja em um monte de gente assistindo DJs. Não acho que isso seja rebeldia. Toque algo novo ou faça algo que você ama. Não me importo se o rock vive ou morre. Possivelmente vou receber muita mensagem me criticando por isso.

Tem muito rock bom que já foi gravado, e se tem uma nova banda, com um som único, e eu ouço várias delas, então ainda está vivo. Não acho que o rock está morto, eu ouço novas bandas legais o tempo todo.

Não vende mais tantos ingressos, isso é verdade. Mas as pessoas vão enjoar desses popstars. E desses Djs. Porque isso é chato.

Banda postou uma foto da coletiva no Brasil, na época do Hollywood Rock, em seu perfil do Instagram — Foto: Instagram/L7 Banda postou uma foto da coletiva no Brasil, na época do Hollywood Rock, em seu perfil do Instagram — Foto: Instagram/L7

Banda postou uma foto da coletiva no Brasil, na época do Hollywood Rock, em seu perfil do Instagram — Foto: Instagram/L7

  • Data: 1º de dezembro de 2018
  • Local: Circo Voador
  • Ingresso: site do Circo Voador
  • Data: 4 de dezembro de 2018
  • Local: Bar Opinião
  • Ingressos: Blue Ticket
  • Data: 5 de dezembro de 2018
  • Local: Hermes Bar
  • Ingressos: Disk Ingressos
  • Data: 6 de dezembro de 2018
  • Local: Music Hall
  • Venda online: Queremos



Fonte: G1