Visto como ‘reviravolta’ no Rio, funk 150 bpm amplia território. Por que ele é diferente? | Música


O funk acelerou. Primeiro no Rio, berço do gênero no Brasil, onde nasceu também uma nova vertente, inspirada no batuque em uma garrafa de refrigerante.

Agora, também em São Paulo e outros estados, onde DJs tentam implementar o 150 bpm (velocidade das batidas por minuto) em sons mais comerciais, para tocar na rádio e na TV.

“O 130, que foi muito usado no funk até 2015 [e é a batida mais comum em SP] é mais cadenciado, mais leve. Já o 150 tem um som mais ‘pegado’, mais para cima”, define o DJ RD, que incluiu o ritmo novo no hit paulista “Só que vrau” (ele demonstra as diferenças no VÍDEO acima).

O DJ Polyvox, criador da batida de 150 bpm, na Nova Holanda, no Rio — Foto: Reprodução/Facebook/Polyvox O DJ Polyvox, criador da batida de 150 bpm, na Nova Holanda, no Rio — Foto: Reprodução/Facebook/Polyvox

O DJ Polyvox, criador da batida de 150 bpm, na Nova Holanda, no Rio — Foto: Reprodução/Facebook/Polyvox

O movimento tem sido visto como uma “reviravolta” no mercado carioca. Nos últimos anos, o Rio amargou papel secundário no funk e São Paulo assistiu à ascensão de Kondzilla, a explosão da ostentação e, mais tarde, do “funk ousadia” – de MC Fioti, Kevinho, Livinho e outros.

O retorno triunfal com o 150 bpm coincidiu com o renascimento dos bailes cariocas, após o fim de uma resolução que impedia a realização dos eventos. Festas como o Baile da Gaiola, na Penha, e o da Nova Holanda, no Complexo da Maré, se tornaram célebres núcleos do funk acelerado.

Uma melhora na economia também ajudou. Dennis DJ, nome importante do funk desde que produziu “Cerol na mão”, no início dos anos 2000, explica:

“Com a crise no Rio, boates e casas de shows foram fechados, assim como bares em comunidades com as UPPs [Unidades de Polícia Pacificadora]. Isso foi minando os talentos, que migraram para outras áreas.”

“O 150 é um grande retorno. Agora, vejo o pessoal mais animado para fazer música”.

Dennis é responsável por uma espécie de “hino” do 150 bpm comercial, o “Medley da Gaiola”. Ele já chegou à terceira posição do ranking de músicas mais ouvidas do Spotify no Brasil.

O pot-pourri é composto por quatro músicas do MC Kevin o Chris. Todas exaltam o estilo de vida dos bailes e perderam boa parte dos palavrões na nova versão.

“Não toco música com palavrão, em respeito aos lugares onde me apresento. São festas em que, muitas vezes, vai a família inteira. Precisava dar uma limpada”, explica o DJ. “Mas acho que [o 150] não precisa ser light [para fazer sucesso]. O que não pode é tirar o beat”.

Não é o que pensa RD. “O funk tem que ter a parcela de sujeirinha pra ter um corpo. Mas vejo muita gente cantando coisas agressivas, que acabam não atingindo todos os públicos”, avalia. E completa:

“O funk do Rio precisa de uma letra que una o jovem, o idoso, mamãe, papai, todo mundo. Tem que ter o hit nacional.”

Bem antes de chegar ao topo do Spotify, o funk acelerado era só um projeto no computador do DJ Polyvox, residente no Baile da Nova Holanda. “Na sala da minha casa, meu filho estava batendo em uma garrafa de Coca-Cola. Achei interessante aquele som e coloquei em 150 bpm”, ele conta.

Depois, foi só incluir a batida na festa para outros DJs aderirem. Muita gente não gostou. O próprio RD, amigo de Polyvox, achou aquilo “uma doideira” na primeira vez que ouviu.

O criador da vertente explica que a má fama inicial foi causada principalmente por músicas com a chamada “voz de esquilo”, que aparece quando a voz é acelerada e fica distorcida. Ele lembra:

“Muita gente não sabia produzir, então fazia a música em 130 bpm e só esticava.”

Dennis DJ criou 'hino' do 150 bpm comercial, o 'Medley da Gaiola' — Foto:  João Vitor Dennis DJ criou 'hino' do 150 bpm comercial, o 'Medley da Gaiola' — Foto:  João Vitor

Dennis DJ criou ‘hino’ do 150 bpm comercial, o ‘Medley da Gaiola’ — Foto: João Vitor

Hoje, ele vê com bons olhos a transformação de sua invenção em um produto mais comercial. “Continua com a mesma essência, e com mais qualidade. Tem que ter mesmo a versão light, não quero colocar uma música com palavrão para o meu filho ouvir.”

Mas o proibidão segue vivo. Aparece principalmente nos podcasts que DJs de funk passaram a usar para divulgar seus trabalhos. Para Dennis, depois de um “momento de stand by”, eles querem agora descobrir “novos caminhos, fora da rádio e da TV”.

“Sempre falo que nada vai ficar aí por muito tempo. O beat do funk estava mais na linha de São Paulo. Esse beat não vai acabar, mas chegou uma nova vertente”, acrescenta.





Fonte: G1